ao som de R.E.M. - 'At my most beautiful'
À primeira vista, parecia ter planos, faíscas de felicidade cintilando nos olhos escuros, castanhos, profundos, hipnotizantes. O aroma de café tornando a atmosfera ainda mais caseira, em mais uma manhã de outono, seca, fria, aconchegante. Passos ao longe, peças pregadas por uma saudade que é a presença de toda a ausência, a materialização da procura pela acústica harmoniosa da tua voz, tua voz que me chama pelo meu nome e então vai até a cozinha preparar um pouco de chá e, misteriosamente, esvanece em meio a fagulhas de ar e poeira de estrelas.
O chão avesso ao sonho me impulsiona e, arrebatado, procuro nas nuvens pequeno abrigo. O cálice dos sentidos cheio até a borda, calda de pêssegos e morangos, odor almiscarado e penetrante. O tremor sentido nos ossos, de olhos fechados, na negação do ver e na ampliação do ser. Eu, na inocência de sorriso cândido e tépido, percebo que simplesmente não posso fazer transbordar, porque não é a hora, não é a hora. Enquanto frente a meus olhos bailarinas realizam movimentos elegantes em sua coreografia eu percebo que é hora de descer, hora de seguir.
A repetição das sombras, ela me acalma. Sempre no mesmo lugar, aquelas árvores, quando me sento protegido da luz forte e cantarolo as mesmas canções, para ver se, por mágica, um portal se abre e eu daqui vá cair em outro lugar; ou que, de tanto eu pensar, esse outro lugar se faça aqui, ou no meio do caminho, quem sabe até em lugar nenhum, para que possamos criar um novo lugar.
Ao redor, uma chuva de pétalas, de belas florezinhas que eu tão bem conheço, que tão bem são símbolos, que tão bem me fazem.
Florianópolis, 27 de maio de 2005 - 15h27min.