sexta-feira, 27 de maio de 2005

Tão bem.

ao som de R.E.M. - 'At my most beautiful'

À primeira vista, parecia ter planos, faíscas de felicidade cintilando nos olhos escuros, castanhos, profundos, hipnotizantes. O aroma de café tornando a atmosfera ainda mais caseira, em mais uma manhã de outono, seca, fria, aconchegante. Passos ao longe, peças pregadas por uma saudade que é a presença de toda a ausência, a materialização da procura pela acústica harmoniosa da tua voz, tua voz que me chama pelo meu nome e então vai até a cozinha preparar um pouco de chá e, misteriosamente, esvanece em meio a fagulhas de ar e poeira de estrelas.

O chão avesso ao sonho me impulsiona e, arrebatado, procuro nas nuvens pequeno abrigo. O cálice dos sentidos cheio até a borda, calda de pêssegos e morangos, odor almiscarado e penetrante. O tremor sentido nos ossos, de olhos fechados, na negação do ver e na ampliação do ser. Eu, na inocência de sorriso cândido e tépido, percebo que simplesmente não posso fazer transbordar, porque não é a hora, não é a hora. Enquanto frente a meus olhos bailarinas realizam movimentos elegantes em sua coreografia eu percebo que é hora de descer, hora de seguir.

A repetição das sombras, ela me acalma. Sempre no mesmo lugar, aquelas árvores, quando me sento protegido da luz forte e cantarolo as mesmas canções, para ver se, por mágica, um portal se abre e eu daqui vá cair em outro lugar; ou que, de tanto eu pensar, esse outro lugar se faça aqui, ou no meio do caminho, quem sabe até em lugar nenhum, para que possamos criar um novo lugar.

Ao redor, uma chuva de pétalas, de belas florezinhas que eu tão bem conheço, que tão bem são símbolos, que tão bem me fazem.
Florianópolis, 27 de maio de 2005 - 15h27min.

sábado, 21 de maio de 2005

pecilotérmico ao avesso, talvez?

ao som de Interpol - 'precipitate'

Eu havia contabilizado exatos 497 vocábulos, descontando um pouco da repetição exaustiva de pronomes e conjunções, porque meu lápis gagueja como minha garganta, naquilo que seria por alguns visto talvez como um prelúdio a um sentimentalismo barato, mas que seria na verdade uma declaração, um abrir de portas para que minha alma saísse e se confraternizasse com o mundo, com o tempo, com você.

A tripulação de meu barco subindo à superfície. E, com ela, o segredo esmiuçado, o subliminar desabrochando em pétalas envernizadas, o escritor revelando-se avesso a esconder, por mais que escritor que conte tudo seja mau escritor.

Mas vai, você sabe, eu não sou escritor, e também não sou tão bom em revelar, e quando tentei, contabilizei exatos 497 vocábulos... faltaram oito, os oito mais importantes, talvez não os mais importantes, mas aqueles que você sabe que estão em todo o lugar para que eu vou, aqueles que finalizam cartas abrindo uma porção de caminhos, seguindo todos os pontos cardeais.

Parece estranho falar de sensações em dias frios como hoje, não? (Será que está frio aí, hein?) Frio que evoca solidão que evoca dormência que evoca falta de sensações... mas acredito que, em mim ao menos, o frio externo acelere a produção de calor interno, numa lógica que estou pouco a pouco desvendando.
Florianópolis, 21 de maio de 2005 - 17h42min.