segunda-feira, 8 de novembro de 2004

camada 00006 || insípido

...no entanto, vêm invadindo sem cerimônias saudades carnívoras, e o sem-palavras em mim pede licença para apenas sangrar em pulsação desproporcionalmente intumescida um choro de criança, desvelado num crescendo de arfares quase mudos, ressentidos, que ora explodem numa torrente de lágrimas, ora se deixam engolir para umedecer tão-somente as lembranças...
E eu, que atravesso ruas sem olhar para os lados, confiando na gentileza dos motoristas, em que mundo vivo?
Hoje foi dia de acordar para contemplar o céu nublado, bela manhã de segunda. Senti que o fim de semana demorou três vezes mais a passar. Sinto que é melhor deixar de lado essas colocações, que não rendem boas cartas, porque saem sinceras demais, e às vezes as pessoas fogem da sinceridade. Como o vampiro do sol. Como eu do sol também, mas sem eu sendo vampiro.
Mas você não vai fugir, não é?...
Já disse que não como macarrão misturado com outras coisas, tais quais feijão, arroz? Só molho.
...graças pelo fato de as coisas não se acabarem, pelo fato de as últimas canções só serem as últimas quando as queremos assim. Maleabilidade, versatilidade, um pouco de relativismo também. Sinto, meu ponto final físico é só o começo de meu infinito etéreo, um romântico que nada tem de sedutor ou encantador ou carismático...
Florianópolis, 08 de novembro de 2004 - 11h 56min

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

camada 00005 || desprocura

Menos um escrito do que um dizer que o tempo não passa. E não suporto mais olhar para os lados e ver as mesmas paredes, os mesmos quadros pendurados obliquamente, como se girassem no próprio eixo, seguindo o movimento dos ponteiros, do sol... balançando à vibração dos passos que ecoam pelo apartamento vazio.
Tenho um espelho que me olha com desdém, de cima a baixo, como se perguntando o que ainda faço ali, me olhando todos os dias, mergulhado num torpor consciente, consciente de que o que há para se fazer é ficar num torpor. E eu invento de chamar nomes, como se nomes materializassem corpos e corpos devolvessem o calor roubado e roubos restituíssem a virtude perdida e perdas trouxessem algum sopro de vida. Mas não, elas matam aos poucos por instigar saudades violentas.
Vai saber, esse é só mais um rabisco em sépia, parte de uma série de rabiscos em sépia que nada têm daqueles momentos nostálgicos dos filmes, onde tudo se encaixa com exatidão, desde o cumprimento cordato trocado entre damas e cavalheiros até a flor que despenca duma árvore e voa, voa, voa até pousar suavemente no colo do moço que espera seu amor passar. Um sinal divino, ele pensa; hoje eu hei de vê-la novamente, e então vencerei minhas fobias e me declararei.
Vida cheia de fobias essa, essas todas, todas vidas maiores do que aquelas que se afogam na fobia de viver. Linhas cíclicas, que terminam exatamente onde começaram, olhando-se no espelho e descobrindo que não há nada mais para se ver, porque... bem, porquês há vários, em cada esquina, em cada escombro.
O melhor acaba sendo não procurar, certo?
Florianópolis, 03 de novembro de 2004 - 22h 56min

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

camada 00004 || contornos

Distantes essas badaladas de um tempo que não passa, ressonando longe, sob um véu de mistério e solidão. Solidão de escuro de quarto, meio de madrugada, sono interrompido, grito lacerante cortando a quietude do ambiente. Grito que não escutei direito, grito meu, exumado de minhas entranhas, intempestivo. Sono fugidio, que não volta mais, pulou a cerquinha de madeira recém-pintada de branco e pôs-se a cavalgar pela planície ampla, sem previsão de retorno. Medo da tempestade que vêm, medo de trovões ribombantes e do tremeluzir de relâmpagos ameaçadores, medo da chuva por ser feito de açúcar recoberto por chocolate granulado. Troteou desesperado, levando na garupa os sonhos, todos eles lindamente embrulhados em brilhoso papel colorido enfeitado por um laço de formato exótico, arranjo rebuscado, cuidadosamente condicionados numa cestinha de vime, palha entrelaçada num mosaico labiríntico. Fuga impensada, correria desmedida, abandono para o menino que ficou à sombra duma árvore, olhando a cerquinha de madeira recém-pintada de branco, o gramado vazio que ela circundava, estendendo os bracinhos e mexendo os dedinhos, como se quisesse capturar aquilo que fugia e, ao longe, sumia, engolido por uma última nuvem de poeira levantada.
Ficam os olhos acesos, lanternas negras a perscrutar a penumbra, dedos ébrios tateando o colchão, tentáculos frenéticos procurando calor, pele, o toque salvador no rosto que não está ali, mas sim em todo lugar. Respiração ofegante, e a chuva lá fora, plec plec plec na janela, gotas grandes, bem maiores do que sementes de laranja, percussão natural agredindo o vidro gelado. Plec plec plec e vem o vento e voooooosh.
Voooooosh. E os contornos da água que escorre pelo vidro embaciado mostram teu rosto, com um sorriso, e um brilho todo especial nos olhos, radiantes, embora negros na coloração inexistente da noite. Rosto, olhos, sorriso. E eu sorrio também. Olhos, rosto, sorriso, em cada pequeno pingo de chuva.
A noite sibila uma melodia cativante, de ecos secos, de badaladas surdas e distantes, que ressonam tão-somente em minh'alma. A orquestra orgânica se manifesta, voooooosh plec plec plec. E até respondo, mas o mundo não escuta o expandir de meu sorriso, tampouco revela-se interessado em meu estado. Gira, a noite passa, eu não durmo. Mas sorrio. Olhos, rosto, sorriso, em cada pequeno pingo de chuva.
Vooooooosh. Plec plec plec.

Florianópolis, 01 de novembro de 2004 - 23h 44min